Elijah Wood
Um hobbit de carne e osso
Elijah Wood é Frodo. Não porque Jackson o escolheu para ser o protagonista do seu filme, mas também porque é aquele que mais impressiona quando o conhecemos ao natural, embora vista "jeans" e não tenha os pés peludos ou aparato de conto de fadas que caracteriza o seu personagem mais célebre no cinema. Este ator de 21 anos, 1,60 de estatura e constituição frágil, sente fascínio pelos mundos mitológicos de Tolkien - fala do anel como se de uma pessoa se tratasse - , e combina o modo jovial com a reflexão meditada, traços que o confirmam como uma escolha óbvia, talvez a mais adequada, para encarnar o hobbit protagonista.
Premiere - Neste filme, você passa grande parte na companhia de Gollum, um personagem digital. Foi difícil atuar frente ao vazio?
Elijah - Não, não foi difícil, porque primeiro rodávamos a cena algumas vezes com o Andy Serkis, o ator que faz a voz do Gollum e do qual foram capturados os movimentos para o tornar mais real. Ao trabalhar com um ator, controlávamos a parte mais física da atuação. Sean Astin, - que interpreta o hobbit Sam, - e eu nos acostumávamos a saber onde estava o Gollum e quando tínhamos que toca-lo. Depois rodávamos sem a presença do ator, mas com a sua voz de fundo para as replicas, pelo que sempre tínhamos uma referência clara. Era complicado, mas suponho que depois de assimilar o processo se tornou relativamente fácil.
P - A longa travessia de Frodo pela terra Média poderia servir de analogia à evolução de um menino que passa da adolescência a maturidade?
E - Creio que essa visão é bem simples. A história retrata uma alma pura, um hobbit inocente que aceita o anel e embarca numa viagem que o transformará numa sombra do que foi e que, pouco a pouco, lhe irá tirando a pureza. Quando se inicia a historia, frodo tem 50 anos, por isso não é tanto uma questão de crescer e torna-se um homem, porque ele já era. Esta viagem é a prova definitiva entre ele e a sua própria mente. E olhando para trás, estou muito orgulhoso do meu trabalho no filme. Frodo acabou por ser o que eu pretendia que ele fosse.
P - Que parte do seu trabalho em As Duas Torres destacaria mais?
E - Há uma seqüência que me agrada particularmente, na qual Frodo desafia Gollum e finge saber mais do que realmente sabe. Gosto muito de como a cena se desenrola e creio que permite ver uma evolução importante em minha personalidade.
P - O que você destacaria na realização de Peter Jackson?
E - tudo. Peter é um realizador incrível que não tem medo dos desafios nem de experimentar. Alem disso, consegue tudo aquilo a que se propõe. Um exemplo: a seqüência das Minas de Moria, em A Sociedade do anel, quando os personagens enfrentam o troll gigante que os quer matar com um pedaço de madeira. Por ser um personagem gerado no computador, o normal seria rodar-se a seqüência com câmaras fixas para depois ser mais fácil integrar lá o monstro. No entanto, Peter filmou-a com a câmera ao ombro para lhe dar mais vida e perigo, o que dificultou ainda mais aparte tecnológica. No final, a seqüência ganhou em veracidade e espectacularidade. Peter é realmente um grande diretor.
P - É ator desde os oito anos. Como fez para evitar o destino de muitos meninos atores que chegam à idade adulta e não encontram quem os contrate?
E - A partir dos 12 ou 13 anos, evitei os filmes para crianças e procurei escolher papeis que fossem dificies. Geralmente, estes papeis surgiam em filmes dirigidos aos adultos, como a Tempestade de Gelo, de Ang Lee. Creio que isso ajudou com que as pessoas não me classificassem como um eterno menino.
P - Outra possível maldição no cinema são os rótulos. Não lhe dá medo que, a partir de agora, seja sempre visto como o Frodo?
E - Não, não me dá medo algum. Desde O senhor dos anéis já fiz dois filmes, Ash Wednesday, de Edward Burns, e Try Seventeen, de Jeffrey Potter. Acredito que continuar a trabalhar em outros filmes enquanto se estréiam os restantes capítulos da trilogia é a melhor maneira de evitar que só me vejam como Frodo.
P - A fama do primeiro filme mudou sua vida?
E - Sim, mudou bastante. Agora vou pela rua e as pessoas me reconhecem muito mais que antes... e na verdade, nem sempre gosto que todos me apontem. Por exemplo, quando ando por Los Angeles, as pessoas me param, me cumprimentam eu devolvo-lhes o cumprimento e vou embora. Não quero que a fama altere a estrutura da minha vida cotidiana, porque então adquiriria um efeito negativo... algo parecido com a maldição do anel.